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Histórias, Estórias e Causos

Uma Esposa na pista 

Tudo começa no sábado, pois domingo é dia de voar. Ferramentas, combustível, aparelhos, caixa de campo, baterias recarregadas desde sexta, controle , flanela, aeromodelo, e outras coisas mais passando na minha frente e indo para a garagem. Enquanto isso ponho água e refrigerante na geladeira, faço uns sanduíches de frango e atum (sempre faço uns a mais), preparo a caixa de isopor, coloco em minha bolsa o protetor solar (claro que ele esqueceria), óculos escuros e viseira , de repente ouço o barulho do motor, meu marido fazendo uma verificação no aeromodelo na garagem , levo um refrigerante para ele e ele me diz que o motor está precisando de uma regulagem pois o tempo está muito úmido e pode até chover e não ter vôo no dia seguinte, com a cara triste continua mexendo em tudo e de vez em quando dá uma olhada para o céu e verifica o tempo e o vento, "se o vento mudar de sudoeste para nordeste vai ter vôo" , ele me diz. Volto para dentro de casa e separo umas revistas para levar, não sei porque faço isso, nunca as leio, e arrumo mais umas coisinhas de mulher além da roupa dele para o dia seguinte.

Quando ele entra em casa já são umas 7 da noite, e tudo já está no carro arrumado com extremo carinho e cuidado e com os olhos brilhando ele me diz: "já coloquei tudo no carro direitinho, só falta por o isopor pela manhã para a gente ir para a pista. Entrou o nordeste."

Pela manhã, céu limpo, após o café da manhã, coloco as coisas no isopor e ele, já pronto, leva para o carro, são 8 da manhã. Fecho a casa enquanto ele tira o carro e lá vamos pela estrada ao som de dinossauros do Rock, Iron Maiden, Led Zeppelin, Pink Floyd entre outros. Poucos minutos depois deixamos a rodovia ao lado da praia e entramos numa rua secundária indo para o interior cheia de casas e condomínios que vão se escasseando e perdendo lugar para os sítios e fazendas com bois para todo o lado até que o asfalto acaba e cede lugar a uma estrada de chão, estamos chegando. Posso ver a ansiedade de meu marido. Numa entrada a direita chegamos a pista, ainda de terra batida , larga e muito comprida, meu marido diz que beira os 230 metros, com tudo gramado em volta, e do outro lado das cercas , muitos bois das fazendas vizinhas e muita vegetação nativa, muito lindo. Ainda me lembro há um tempo atrás quando não havia cercas e a pista ficava, digamos, toda "suja" por causa dos bois e quem chegava pegava um pedaço de papelão ou outra coisa para limpar a pista e de vez em quando, um tomava uma carreira de um boi, mas todos já tinham se transformado em crianças novamente, faziam aquilo com um brilho especial nos olhos, ninguém reclamava.

Todos, aos pouco chegavam, descarregavam os carros, montavam tudo perto da pista e eu observando, todos se cumprimentando, rindo, um sacaneando o outro, se ajudando, puxando pelos novatos, parecia um monte de crianças se divertindo, retornando ao tempo que não havia preocupações com a vida, realmente aquilo tudo era um desligamento total da correria do dia a dia que todos nós levamos.

De repente o primeiro motor é ligado e logo outros mais virão, entre uma conversa e outra fico observando. Logo algumas pessoas da região chegarão para ver e outros da cidade. Todos são bem vindos e são atendidos em suas dúvidas.

Quando estão voando o mundo pára a sua volta, dá para sentir que o ser humano, controle e aeromodelo, se fundiram em um só, passaram a ser uma só pessoa, entre manobras e aplausos, vejo os que estão começando totalmente petrificados, a atenção está voltada para o céu, um, dois, três, quatro no ar e o barulho dos motores cortando meu ouvido. Pego um refrigerante para mim, o sol está esquentando , vem um e me pede água, ofereço um refrigerante mas recusa naquele momento, pois prefere tomar refrigerante mais tarde com um sanduíche de frango, a fome ainda não aperta, é cedo. Minha amiga ao lado me oferece um salgadinho e uma caipirinha, mais outra que acompanha o marido, ficamos batendo um papo.

Quando a fome aperta começa a distribuição de sanduíches, salgadinhos, muitas vezes tem alguém assando uma carne na brasa, vira uma festa, mas não demora muito a sinfonia de motores volta a tocar.

Comento com minha amiga como nossas "crianças" se transformam, cada um com sua profissão ou negócio, responsabilidades com família, preocupações diversas, e nessa hora todos são iguais, esquecem dos problemas e vivem a vida.

O tempo vai passando e vai chegando a hora de ir embora e sinto um misto de realização pessoal com tristeza em todos.

Tudo vai sendo desmontado e guardado nos carros, lentamente, entramos no carro e começamos voltar para casa, primeiramente em silêncio, depois começam os comentários de como foram os vôos, as manobras, que tem mais um querendo aprender e entrar no clube, coisas assim.

Em casa , meu marido retira tudo do carro, limpa tudo e pendura o aeromodelo na parede. Acabou o dia, agora é relaxar para começar a semana bem.

O brilho nos olhos continua.

Autor: Anna Beatriz